O Brasil no Tabuleiro do Crime Global: Corredor Logístico ou Potência Soberana?

Publicado em 25 de Agosto de 2025

Boa parte do fluxo global de cocaína passa pelo Brasil. Mais do que uma simples fronteira porosa, é uma posição geográfica privilegiada para o crime organizado. O país conecta a produção da Colômbia, do Peru e da Bolívia às rotas que atravessam a Amazônia até chegar ao Atlântico e, de lá, seguir para Europa e África. Essa transformação é silenciosa, mas profunda –  o Brasil deixou de ser um consumidor secundário para se tornar um dos principais corredores estratégicos da economia criminal global.

A dimensão do problema é impressionante. A produção já ultrapassa 3.700 toneladas anuais nos Andes. Não se trata de flutuação passageira, mas de crescimento constante impulsionado pela expansão das áreas de cultivo na Colômbia e pela sofisticação das redes de exportação. O dado em si já seria grave, mas o essencial é a geopolítica por trás dele. A cocaína deixou de ser problema regional e se tornou variável estrutural da economia criminal mundial, com reflexos em sistemas financeiros, em políticas de segurança e até na diplomacia entre países.

As rotas ilustram o ponto. Rios amazônicos funcionam como corredores perfeitos para o escoamento da droga, ligando áreas de cultivo às cidades do interior e, depois, ao Atlântico. A partir daí, o fluxo se conecta às redes marítimas que abastecem principalmente a Europa e a África Ocidental. Os EUA seguem sendo grandes consumidores, mas a Ásia e até regiões do Oriente Médio começam a registrar crescimento acelerado. A economia da cocaína se tornou globalizada. E o Brasil é hoje uma de suas principais engrenagens.

Nesse cenário, o paradoxo brasileiro fica ainda mais evidente. Sob o pretexto de preservar a floresta, a agenda verde internacional bloqueia a Amazônia para atividades produtivas legais. Impede mineração, energia e cadeias industriais que poderiam gerar emprego e presença estatal. Ao mesmo tempo, nada impede que facções criminosas usem o território como corredor de exportação. O resultado é perverso. A floresta que não pode produzir riqueza lícita se converte em ativo estratégico para o narcotráfico.

A questão não é apenas policial, mas estratégica. Ao se consolidar como corredor logístico do crime, o Brasil reforça a fragilidade de sua soberania. Controlar rotas de escoamento resultaria, além do enfraquecimento das facções, a desarticulação das redes financeiras que lavam bilhões de dólares por ano. Se houvesse decisão política para comprometer as rotas logísticas, o país poderia alterar a correlação de forças de todo o mercado global de drogas.

Esse cálculo não é ignorado no exterior. Trump já articula uma frente internacional contra o crime organizado, com medidas que vão além da repressão doméstica. Trata-se de estratégia transnacional, que envolve inteligência financeira, sanções extraterritoriais e pressão sobre países considerados lenientes. Nesse tabuleiro, o Brasil é estrategicamente importante. Sua posição geográfica o coloca como elo central. Ignorar esse papel não significa apenas conviver com facções fortalecidas, mas arriscar-se a se tornar alvo de medidas externas que tratem o país como território capturado pelo crime.

A escolha que se impõe é clara: seguir como corredor logístico de uma economia criminal trilionária, aceitando o enfraquecimento de sua soberania, ou assumir a responsabilidade de potência regional, capaz de comprometer as rotas e atingir o coração financeiro do narcotráfico global. Entre ser peça do crime ou ator soberano, não existe meio-termo.

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