
Publicado em 31 de Janeiro de 2026
Você aí, ainda resmungando sobre inflação, desemprego, salário que não acompanha o preço do ovo (não o de Páscoa, o comum), e dizendo que o Brasil está afundando em uma crise sem fim? Pare com isso, meu caro. Você está olhando para o lado errado do telescópio. O que você chama de “crise” é, na verdade, o ápice da engenhosidade nacional: o capitalismo reinventado à brasileira, onde o verdadeiro produto não é mais o bem de consumo, mas o carnê em si.
Nós não compramos coisas; nós compramos o direito de pagar por elas por décadas. Isso sim é sofisticação financeira. Vamos começar pelo básico, que já virou clássico: o sonho da casa própria foi aposentado e substituído pelo sonho do iPhone 17 Pro Max (ou 18, dependendo de quando você ler isso). Antigamente, consórcio era coisa séria: grupo pessoas juntando dinheiro para comprar um carro ou a sonhada casa própria. Hoje? Consórcio de iPhone é realidade concreta. Empresas especializadas oferecem planos dedicados, com cartas de crédito calibradas exatamente para o preço salgado dos aparelhos da Apple — que, convenhamos, equivalem a 5, 6 salários mínimos para muita gente. Você parcela em 48 meses, participa de sorteios e lances, e quando a carta chega, corre para a loja.
É planejamento puro, dizem as propagandas. Planejamento para ter o celular mais caro do mundo enquanto o aluguel atrasa. Progresso! E não para por aí. Agora, vamos ao nível master: a gastronomia parcelada. Pizza em 6x no cartão? Amador. Hoje você faz Pix parcelado — sim, o Pix, que nasceu gratuito e instantâneo, virou linha de crédito disfarçada. Bancos e fintechs permitem parcelar em até 12 vezes, 24 vezes em alguns casos, com juros que variam, mas quem liga? Você pede uma pizza family size com borda recheada, paga via Pix no cartão de crédito ou no novo “Pix parcelado” (empréstimo instantâneo), e o sabor da redonda chega hoje, enquanto as parcelas te perseguem até o Natal. A caixa vira lixo reciclável, mas a dívida? É a economia circular da miséria gourmet: come hoje, paga em 6 meses, e dá tempo suficiente para fazer a digestão. Se quiser ostentar, peça uma Coca-Cola de 2 litros. Mas o ápice da transcendência continua sendo o Ovo de Páscoa financiado com FGTS. Lembra de 2025? Lojas sugerindo abertamente usar o saque-aniversário ou antecipação do Fundo de Garantia para comprar chocolate com brinde vagabundo. O FGTS, que era reserva para demissão, virou linha de crédito acessível via bancos – sempre eles:
Você saca/antecipa, compra o ovo de 300g (ou 1 kg se for ousado), come o chocolate em uma semana, e compromete parte da sua única proteção trabalhista por um pico de glicemia pascal. Quando a Páscoa acabar, parcela uma pizza para compensar a culpa. E o ciclo continua. Adicione a isso o crédito consignado bombando (taxas mais baixas, desconto em folha, mas, ainda assim, dívida eterna para aposentados, servidores e CLT), empréstimos pessoais disfarçados de “facilidades”, e o resultado é claro: o brasileiro não consome produtos; consome prestações. O carnê virou moeda nacional. Quer tecnologia de ponta? Tem. Quer comer uma pizza? Tem. Ovo de Páscoa? Tem.
Então, pare de reclamar. O futuro chegou em 12 vezes, sem entrada, com taxa de administração embutida e aceita FGTS. Os juros? Ah, relaxa. É só o preço da modernidade. E da sua alma, claro.