Por Lorenzo Carrasco e Geraldo Luís Lino

Nada como um ano após o outro, com uma eleição presidencial nos EUA de permeio, para provocar um proverbial cavalo de pau na percepção de uma das principais entidades promotoras da utópica meta das emissões de carbono líquidas zero (net zero) até 2050, o “Santo Graal” da agenda da descarbonização da economia mundial.

A guinada veio de ninguém menos que a Agência Internacional de Energia (AIE), que até agora vinha sendo uma das principais batedoras de bumbo do net zero.

Em um relatório de 2021, a AIE instava enfaticamente as empresas de combustíveis fósseis a não ampliarem os seus investimentos em projetos de petróleo, gás natural e carvão mineral, sob o risco de que o mundo não pudesse atingir o “carbono zero” no prazo estabelecido.

Ainda em 2024, a agência trombeteava uma estimativa de que os investimentos em fontes de energia limpa atingiriam US$ 2 trilhões no ano, o dobro dos investimentos em combustíveis fósseis. “Os investimentos em energia limpa estão estabelecendo novos recordes, mesmo em condições econômicas desafiadoras, ressaltando o momento por trás da nova economia de energia global. Para cada dólar que vai hoje para os combustíveis fósseis, quase dois dólares são investidos em energia limpa”, dizia a plenos pulmões o diretor-executivo da AIE, Fatih Birol (IEA, 06/06/2024).

Corta para março de 2025. Na conferência anual CERAWeek – um evento que reuniu líderes do setor para debater a evolução da indústria energética –, em Houston, EUA, Birol efetua uma guinada de 180 graus e afirma que há uma premente necessidade de mais investimentos na exploração de petróleo e gás natural. “Eu quero deixar claro… haveria uma necessidade de investimentos, especialmente para compensar o declínio dos campos existentes. Há uma necessidade de investimentos a montante [referentes à exploração e produção], ponto”, disse ele (Reuters, 10/03/2025).

A mudança de posição coincide com a troca de guarda na Casa Branca, já que os EUA são os maiores financiadores da AIE, com 25% do seu orçamento. Antes, se a agência estava plenamente sintonizada com a agenda verde de Joe Biden, o mesmo não ocorre com a de Donald Trump, vigorosamente empenhado em desmantelar a teia de regulamentações e incentivos que promove a descarbonização.

Entre as medidas que Trump está implementando, várias delas são orientadas para reverter o declínio do carvão como fonte de energia, que desde o início do século caiu de mais de 50% da geração elétrica para menos de 15%. Sob as regras vigentes até agora, cerca de 120 termelétricas deveriam ser fechadas nos próximos cinco anos, grande parte delas antieconômicas devido aos rigores da legislação ambiental. Segundo o secretário do Interior, Doug Bergum, o governo está considerando usar medidas emergenciais para reativar usinas fechadas e impedir que outras fechem. 

Realmente, em 2024, o consumo de carvão bateu o recorde histórico e o mesmo deverá ocorrer em 2025, sobretudo devido ao consumo crescente da China e da Índia, onde teve um aumento de 1,5% e 5% respectivamente. Agora, Trump não quer ficar para trás.

Outro conferencista em Houston, Amin Nasser, executivo-chefe da mega petrolífera saudita Aramco, usou de ironia para reforçar o libelo contra a atual transição energética: “Há mais chance de Elvis [Presley] falar aqui do que o plano atual funcione. E uma onda de insatisfação pública com a realidade da transição está desabando sobre países, companhias e consumidores (OilPrice, 18/03/2025).”

De fato, nos últimos 12 meses, o S&P Global Clean Energy Transition Index, um dos principais índices adotados para medir o desempenho do setor, caiu nada menos que 16%, devido aos custos crescentes e às incertezas sobre o apoio político às fontes ditas limpas. “Eu nunca vi antes tal subvalorização em companhias de crescimento estrutural. O mercado não antecipa mais expansão no setor de descarbonização”, lamenta Deirdre Cooper, chefe de Ativos Sustentáveis do Ninety One Equity Fund (Black-out News, 20/03/2025).

Irina Slav, veterana jornalista especializada em energia do site OilPrice.com, sintetiza com precisão a tendência (18/03/2025):

“Os mercados de energia são realmente movidos por forças tecnológicas e econômicas fundamentais, estas últimas sendo as mais fundamentais de todas: oferta e procura. Entretanto, as leis da oferta e procura não têm favorecido a transição. De fato, essas leis têm mostrado que a transição é insustentável sem um apoio governamental considerável e contínuo, como evidenciado pelos repetidos apelos da indústria eólica e solar por mais subsídios, na medida em que a era das taxas de juros baixas parece estar encerrada no momento. Quanto às forças tecnológicas, elas funcionaram na China – com décadas de pesquisa e desenvolvimento e mais subsídios –, mas elas não podem funcionar do mesmo modo na metade do tempo, como quer a Europa.

“O resultado dessa lacuna entre desejos e realidade é que os investidores – os promotores da transição, além dos governos generosos – estão deixando o espaço. (…)”

Em suma, ao que tudo indica, o mundo real não está favorecendo o wishful thinking dos “descarbonizadores”. E, a propósito, seria de bom alvitre que os brasileiros, tanto governantes quanto agentes privados, prestassem a devida atenção a esses desdobramentos.

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