A direita brasileira entre a reação e a ausência de projeto

Publicado em 28 de Agosto de 2025

Nos últimos anos, a chamada direita brasileira se acostumou mais a reagir do que a construir. O centro do discurso continua sendo o antipetismo, acompanhado de um anticomunismo difuso que raramente se transforma em proposta real. É evidente que o PT representa problemas profundos para o país, pela forma como governa, pela rede de interesses que sustenta e pelo legado de escândalos que acumula. Contudo, reduzir a política a ser apenas um reflexo contra o PT é um erro que empobrece o debate. Esse mecanismo cria uma dependência que impede a formulação de alternativas. O petismo se consolida como espantalho permanente, e a direita, em vez de disputar o futuro, limita-se a repetir a mesma reação, sem apresentar soluções próprias.

As incoerências são visíveis. Enquanto repete slogans de Estado mínimo, denuncia que empresas como China, BTG e JBS estariam “comprando o Brasil”. Defende o livre mercado, mas não tolera os resultados quando eles não favorecem seus aliados. O liberalismo, nesse cenário, funciona mais como palavra de ordem do que como convicção. Soma-se a isso a distância em relação à economia real, o desprezo pela formação técnica e histórica, e a dificuldade de tratar de temas sociais mais amplos. Esse conjunto de falhas explica a incapacidade de compreender os problemas atuais e de oferecer alternativas consistentes.

Na prática política, a liderança passou a ser medida pelo barulho nas redes sociais. A crítica ao PT virou sinônimo de atuação, mesmo sem resultado concreto. A política se transformou em campanha permanente, guiada pela lógica das curtidas. Nesse ambiente, oportunistas ganham espaço, escândalos internos são ignorados e a coerência se perde em nome da conveniência. O eleitor é tratado como público de espetáculo, e não como cidadão que precisa de soluções. Esse modelo, que parece eficaz a curto prazo, acaba reforçando justamente o PT, pois o coloca de novo no centro do debate e permite que se apresente como alternativa diante do vazio da direita.

No campo cultural, o quadro se repete. Muito se fala em guerra de narrativas, mas o investimento em cultura é mínimo. O debate público é substituído por slogans e frases fáceis, enquanto a produção intelectual, literatura, reflexão histórica e artística ficam de lado. Sem ocupar esse espaço, a direita perde densidade, ignora a própria história e evita a autocrítica. O resultado é um movimento preso a chavões que já não mobilizam. Esse vazio cultural facilita a vida do PT, que, mesmo com seus próprios limites e contradições, ocupa o terreno disponível e mantém influência sobre universidades, centros de pesquisa e segmentos da sociedade civil.

O fortalecimento da direita depende de uma mudança profunda. Não virá de frases de efeito nem da multiplicação de perfis digitais. O desafio é construir um projeto coerente, enraizado na realidade brasileira, com um diagnóstico econômico sólido, investimento em formação, diálogo com demandas sociais concretas e clareza estratégica de longo prazo. Só assim será possível disputar espaço com o PT em condições reais, oferecendo ao país uma alternativa consistente. Sem isso, a direita continuará orbitando em torno do petismo, reagindo a cada movimento adversário, mas sem conseguir propor um futuro para o Brasil.

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