O outro Whatsapp que o Brasil quase não viu

Publicado em 20 de Setembro de 2026

O brasileiro adora uma conversa bem embalada. Na semana passada, o país parou para analisar, vírgula por vírgula, as mensagens encontradas no WhatsApp do banqueiro Daniel Vorcaro. Entre pedidos de socorro a um ministro e dúvidas sobre pegar o primeiro voo para fora do país, as mensagens foram um prato cheio para o noticiário. O problema é que, enquanto todos olhavam para isso, outro WhatsApp que mostrava muita proximidade com o poder, passou quase batido.

O aplicativo de mensagens de Roberta Luchsinger conta uma história que contraria o discurso oficial. A lobista chamou Lulinha de “meu sócio” pelo menos oito vezes entre 2023 e 2024. Áudio, texto, tudo gravado. Quando a PF a chamou para depor, veio a amnésia: negou sociedade, negou repasse, negou tudo, mas a memória do celular desmentiu o depoimento linha por linha.

Lula foi rápido em tentar cortar o mal pela raiz. Em entrevista, mandou a máxima do “nunca vi, não sei quem é, é uma pilantra”. O problema é que a tal pilantra tem um acervo no Instagram com mais de dez fotos coladas ao presidente entre 2021 e 2023, com direito a legendas carinhosas e o já folclórico “o pai tá on”. Para quem nunca viu a moça na vida, a convivência parecia surpreendentemente calorosa.

Mas o ponto central não são as fotos para redes sociais. É o livre trânsito. Roberta fez 42 visitas a órgãos do governo federal em pouco mais de um ano. Desses 41 encontros simplesmente não existiam nas agendas oficiais. Dezessete entradas no gabinete de Wellington Dias, dezesseis no Ministério da Saúde. Em duas oportunidades, levou a tiracolo Fernando Bittar — aquele mesmo do sítio de Atibaia e sócio de Lulinha — para dentro do Planalto, sem registro na portaria, sem explicação pública.

E para costurar tudo isso, nada como um bom ponto de apoio na capital. Uma mansão no Lago Sul, com aluguel na casa dos R$ 100 mil por mês pago por Roberta, virou o endereço de reuniões de ministros, assessores e do próprio Lulinha. O trio (Roberta, Lulinha e Bittar) mantinha até um grupo no WhatsApp focado em discutir contratos, burocracia e portas de entrada no governo.

A gentileza financeira de Roberta também transbordava nos boletos alheios. Os investigadores levantaram que a empresária pagou R$ 217 mil em despesas pessoais de Marcola, o então chefe de gabinete de Lula. A lista inclui faturas de cartão de crédito, financiamento de carro, seguro e jóias — com direito a um colar de diamantes de R$ 9,2 mil para a esposa do assessor.

Se jorrava muito dinheiro da conta da lobista, o dinheiro também entrava com facilidade. Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, depositou R$ 1,5 milhão para a empresa de Roberta em parcelas de R$ 300 mil. Em uma das conversas apreendidas, Antunes explicava que um dos repasses era “para o filho do rapaz”. Roberta jura que foi tudo pagamento por uma consultoria legítima sobre a regulação de canabidiol. A Polícia Federal, no entanto, tenta entender se o serviço prestado era a regulação da planta ou o loteamento de acesso ao governo.

Mensagens de sócio, negação pública, fotos com o presidente, reuniões fora da agenda, mansão de alto custo, entradas no Planalto, grupo de WhatsApp, pagamentos a assessor próximo e um milhão e meio vindos do Careca do INSS. Tudo documentado.

O barulho das mensagens de Vorcaro quase empurrou as de Roberta para a espiral do silêncio, mas o brasileiro merece a verdade sobre ambos. Até onde vai a intimidade entre negócios privados e o topo do poder?

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