
Publicado em 17 de Setembro de 2026
O debate público brasileiro está desqualificado a ponto de supostas lideranças políticas sentirem-se confortáveis com sua falta de bom senso e racionalidade, falando sobre “nepalizar o Brasil”.
Parece que virou moda transformar em verbo a adesão a uma determinada política que é inaplicável no Brasil e só será compreendida por meio de seu exemplo concreto, como bukelezar, ucranizar e até a proposta recente de nepalizar.
O Nepal é um Estado sem litoral, no sul da Ásia, encravado entre a China (Tibete) ao norte e a Índia ao sul, leste e oeste, com dimensões que se aproximam do estado do Ceará, no Brasil.
É um país com importância estratégica exclusivamente local; crises, mudanças políticas e movimentos sociais de grandes proporções importam para a Índia e a China em alguma medida, mas não é um país que abastece estrategicamente outros países, tal qual o Brasil como exportador de alimentos.
É um país que tem menor relevância, proporção territorial e mexe com interesses de grandes importadores de alimentos; são cenários políticos, econômicos e institucionais simplesmente incomparáveis. É uma insanidade pensar que o que pode ter dado certo no Nepal seja minimamente aplicável em terras tupiniquins.
Mas quando se descreve o ambiente político em que surge essa proposta de nepalização, tudo fica mais estranho — principalmente quando se percebe de quem vem essa proposta.
A proposta de insurreição parte de quadros da direita brasileira que se mostraram indignados com a condução da Suprema Corte na sessão extraordinária da PET 16.662.
Faltando menos de 20 dias para o primeiro turno da eleição majoritária, que tem Flávio Bolsonaro à frente nas pesquisas de intenção de voto, surge uma proposta de revolução total. Prestes a tomar os meios institucionais por meio da via eleitoral, esse grupo instiga a população a uma revolução total contra as instituições que eles mesmos, em muitos casos, têm a pretensão de ocupar.
Ora, o povo, que poderia estar se dedicando a trocar quem ocupa as instituições, agora é convocado para tentar promover a aniquilação delas às vésperas de uma eleição majoritária que sinaliza uma vitória de seu grupo político — ou talvez a vitória não seja de seu grupo —, parece uma decisão que beira a insanidade e fere todo tipo de bom senso.
Alguém pode trazer um argumento moralista para essa discussão: “Independentemente da eleição e do poder institucional, isso é o certo a fazer para sanear o Brasil.”
Mas é preciso lembrar que a revolução no Nepal não saneou as instituições, promovendo, no longo prazo, uma verdadeira máquina de moer e perseguir dissidentes políticos.
Assim como a ucranização abriu espaço para a Open Society Foundations, gerando um efeito contrário ao pretendido pelos participantes dessa ação política, no Nepal, a revolução pode ter derrubado um premiê, mas não derrubou o estamento inteiro, que passou a tratar o controle das plataformas de comunicação como questão existencial.
São esses os quadros que querem governar o Brasil, totalmente desprovidos do mais puro bom senso e do instinto de sobrevivência que às vezes sobra em crianças de seis ou sete anos?
São pessoas que não conseguem prever os efeitos que o curso das suas ações pode ter no cenário político, porque foram intelectualmente castradas e sacrificaram seu bom senso para aderir à psicose ideológica de seus próprios devaneios. Ou são sabotadores ardilosos que vestem, sob o manto da fome de justiça e da impaciência, uma agenda que beneficia apenas seu grupo?