Dois Brasis, uma só conta

Publicado em 14 de Setembro de 2026

O caso Master abriu uma janela para o mundo particular de Brasília. As mensagens encontradas pela Polícia Federal, as relações de Daniel Vorcaro com gente poderosa e a crise no Supremo revelaram uma disputa pelo controle das investigações, dos julgamentos e das informações que chegam ao público.

Foi nesse ambiente que Lula declarou que “o povo tem o direito de saber a verdade”. Cobrou a divulgação dos documentos e disse que ninguém deveria ser poupado. A frase expressa uma regra básica para qualquer democracia. Sua aplicação pelo governo, porém, depende de quem aparece na investigação.

Na CPMI do INSS, a base governista barrou a convocação de Frei Chico, irmão de Lula e vice-presidente de um sindicato investigado por descontos indevidos em aposentadorias. Impediu que Lulinha fosse chamado a depor e poupou Roberta Luchsinger, apontada como elo entre o filho do presidente e o Careca do INSS. Sua convocação caiu por 16 votos a 12.

A crise do Supremo faz parte desse cenário. O debate deixou de tratar apenas dos fatos e passou a envolver quem pode investigar, divulgar e julgar. Alexandre de Moraes tentou reunir processos diferentes na mesma sessão. Fachin recusou. Gilmar Mendes interrompeu, com um pedido de vista, um julgamento que já tinha maioria formada sobre o comando da Polícia Federal.

O caso que deveria ser esclarecido alimentou uma guerra de ofícios, decisões e movimentos internos. Brasília se concentrou em controlar o próximo passo. Parte da imprensa acompanhou o jogo, escolhendo o espaço de cada notícia, os nomes destacados e as informações empurradas para o fim das reportagens. O cidadão recebe uma realidade filtrada.

Fora desse circuito, a vida é dominada por urgências. A cesta básica compromete quase metade do salário mínimo líquido, em média. Em São Paulo, passa de R$ 900. Quatro em cada dez brasileiros percebem a presença do crime organizado no próprio bairro. Famílias cortam comida e mudam seus caminhos por medo das facções.

Lula também afirma que ninguém tem “autoridade moral” para cobrá-lo na área fiscal. Durante seu terceiro mandato, a dívida bruta saltou de 71,7% para 81,1% do PIB – em valores nominais, chegou a R$ 10,6 trilhões, a maior da história. A responsabilidade citada nos discursos desaparece no mesmo ritmo das despesas.

As estatais federais acumulavam déficit recorde de R$ 8,3 bilhões até julho, sem incluir Petrobras e Eletrobras. Os Correios viraram o símbolo do descontrole, com prejuízos e necessidade de socorro. O governo indica os dirigentes, administra as empresas e envia os prejuízos ao Tesouro.

O Tesouro é abastecido pelos impostos cobrados na comida, no combustível, na energia, nos serviços e no salário. Cada rombo, privilégio e decisão irresponsável aumenta o esforço exigido de quem trabalha. A disputa de poder em Brasília também chega ao caixa do supermercado e às contas da família.

Existem dois países. Um vive de reuniões fechadas, decisões de madrugada, sigilos convenientes, cargos e manchetes administradas. O outro enfrenta alimentos caros, crime organizado, serviços ruins e boletos todos os meses. 

Lula pode exigir que o povo saiba a verdade. Mas precisa garantir que ela alcance sua família, seus aliados e seu governo. Transparência usada conforme a conveniência perde qualquer valor. O Brasil já paga caro demais por uma Brasília que exige explicações de todos e reserva proteção para os seus.

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