A política sem ideais

Publicado em 11 de Setembro de 2026

Depois de uma sucessão de escândalos envolvendo quadros importantes da alta cúpula do Judiciário brasileiro, a grande mídia, vozes do debate público e quadros da elite política nacional vêm a público falar sobre diálogo, renovação, harmonia institucional e novos pactos republicanos.

Mas o que motiva esse ímpeto de renovação? Por que os donos do poder e seus porta-vozes da mídia tradicional estariam tão interessados em promover mudanças e alterações institucionais?

A elite quer tutelar essa renovação institucional, tem esperanças de, com essa tutela, atenuar as transformações e manter o arranjo institucional favorável às suas pretensões que visam à manutenção de seu poder: mudar tudo para que nada mude. No Brasil contemporâneo, a política foi desarmada de qualquer vocação para ordenar a vida comum em torno de princípios éticos, transcendentes ou de um projeto nacional. Bons governantes são avaliados não pela capacidade de conduzir o povo em direção à união e à prosperidade, mas por sua fidelidade à ortodoxia econômica e pelo modo como organizam as relações institucionais para viabilizar a atração de capital especulativo.

Transformam-se os órgãos da administração pública do país em uma casa de máquinas burocrática e indiferente à vida dos brasileiros. O debate sobre o homem, o trabalho, a soberania e a justiça foi reduzido a números em planilhas e critérios de eficiência, em que a dignidade popular só vale nas margens estipuladas pelos investidores. A política deixa de ser a arena da decisão sobre os fins coletivos para se tornar um protocolo burocrático de sobrevivência de um sistema financeiro que se alimenta de forma parasitária da estagnação da base produtiva da nação.

A política ocidental sempre foi determinada por valores moralmente elevados, que apontavam para uma nobreza muitas vezes inalcançável. Dois grandes marcos desse horizonte idealista foram a Atenas de Péricles e a Cidade de Deus de Agostinho. Embora sejam conceitos civilizacionais diferentes, ambas as visões estabelecem os princípios básicos que dão sentido à vida em sociedade e definem o bem comum.

Para Péricles, esse horizonte era inteiramente político, material e histórico. A cidade exigia devoção absoluta de seus cidadãos, e o discurso público funcionava como ferramenta poderosa para manter a unidade e afastar a stasis — a ameaça constante da guerra civil e das divisões sociais —, unindo o povo em torno da imagem de um Estado perfeito que cobrava sacrifícios em nome da glória e do império.

Agostinho falou sobre o céu e a vida eterna que esperam pelo cristão. Sabendo que todo governo humano é falho e movido pela ambição, retirou a esperança de um paraíso das mãos do Estado. Sua cidade ideal era vindoura, e a política real foi reduzida a instrumento da vida terrena: ferramenta necessária para evitar o caos, garantir o bem comum e uma paz temporária em um mundo imperfeito afetado pelo pecado original. 

Assim, essas duas referências formam o horizonte político ocidental: o desejo de grandeza e união coletiva, contraposto pela aceitação realista de que o poder humano precisa de limites.

E quais são os valores que norteiam a política brasileira, para além dos interesses de grupos oligárquicos e de algumas famílias tradicionais? Quem tem arriscado estipular metas idealistas para tentar mudar a realidade brasileira?

Aqui, o povo foi condicionado a aceitar uma política sem ideias, sem grandes projeções e projetos nacionais. E agora está à vista de todos o poço de imoralidade em que se pode cair ao aceitar isso.

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