São Paulo entre a campanha e os interesses bilionários

Publicado em 07 de Setembro de 2026

Quando falta energia ou a água chega fraca , o consumidor quer respostas. No maior mercado do Brasil, isso toma proporções maiores. Sabesp e Enel podem e devem ser cobradas: uma por tarifas e abastecimento; a outra, pelos apagões. Fiscalizar é obrigação. Selecionar fatos para uma campanha eleitoral ou alimentar uma disputa econômica bilionária é outra coisa. O PT parece fazer as duas coisas.

Fernando Haddad transformou o reajuste de 6,11% da Sabesp em crítica ao governo Tarcísio. Foi o primeiro desde a desestatização, apenas repôs a inflação de 16 meses e não trouxe aumento real. Mesmo assim, a tarifa ficou 15% abaixo do valor previsto pelo contrato do período estatal.

Reajustes maiores em estatais ficaram fora do discurso: Compesa, de Pernambuco, 9,98%; Cagece, do Ceará, 9,73%. Haddad também evita falar da a reforma tributária aprovada quando comandava a Fazenda. A carga efetiva do saneamento gira em torno de 9%. Com as novas regras, estudos projetam tributação próxima de 27% e impacto de 16% a 18% nas tarifas. O reajuste vira peça eleitoral. O imposto criado sob sua gestão desaparece.

Na energia, um processo de caducidade da Enel está nas mãos do governo Lula. E a cronologia chama a atenção. O processo tem como argumento o apagão após os vendavais extremos de dezembro de 2025. A Aneel, que conduz o processo, recusou uma perícia independente sobre questões meteorológicas, operacionais e regulatórias. Na mesma reunião, abriu consulta pública para discutir eventos climáticos severos e novas formas de medir a qualidade do serviço. Reconheceu que o assunto exige novas regras e, minutos depois, negou uma perícia sobre esses fatores no processo que pode retirar a concessão.

Os apagões justificam cobranças, não um cheque em branco. Quanto mais grave a punição, maior deveria ser o cuidado com os critérios, os efeitos da transição e o benefício concreto para o consumidor. Foi justamente essa análise que não apareceu.

O ministro Alexandre Silveira declarou que a Enel perdeu as condições de operar em São Paulo, falou em “saída negociada” e defendeu a troca de controle. A palavra final caberá ao ministério comandado por ele.

A concessão atende 8,5 milhões de unidades consumidoras e pode valer até R$ 25 bilhões. A CPFL declarou interesse na compra. Ela é controlada pela State Grid, estatal chinesa. Em abril de 2025, Silveira visitou a sede da State Grid na China. Também é preciso lembrar que concessões do grupo CPFL foram renovadas, enquanto a da Enel em São Paulo seguiu na direção contrária.

Goiás mostrou que trocar a empresa não encerra a história. Lá, após um processo parecido, a Equatorial assumiu a concessão. A nova controladora recebeu três anos de flexibilização nos critérios de qualidade e gestão financeira, sem risco de caducidade por esses motivos. Em 2025, a tarifa subiu quase 20%. 

Quem entra pode receber regras mais leves e o consumidor, uma conta maior. Em São Paulo, há um ativo bilionário e um ministro que antecipou sua preferência antes de receber o processo para decidir.

É aí que água e luz se encontram. Não porque Sabesp e Enel sejam iguais, mas porque o PT encontrou nas duas situações uma oportunidade. Na água, esconde os números que enfraquecem sua crítica e o imposto que ajudou a criar. Na energia, alimenta uma disputa bilionária.

No discurso, tudo é feito em nome do consumidor. Na prática, a água e a luz de São Paulo servem como munição eleitoral e oportunidade econômica. O PT aproveita as duas. Quem paga a conta, entra só como argumento.

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