A falsa tolerância dos moderados radicais

Publicado em 05 de Setembro de 2026
De tempos em tempos, a grande mídia nos ajuda a compreender por que o Brasil ainda é um país de Terceiro Mundo: a classe falante nacional não é qualificada para deliberar sobre o orçamento de anões de jardim em um espaço condominial.

Trata-se de uma tropa de histéricos que, na ânsia de comprovar pontos de vista e validar sua visão de mundo, é capaz de mentir com absurda naturalidade e instrumentalizar autores brilhantes para dar verniz inteligentinho às suas opiniões.

É como se o Cachorrão dos Teclados se oferecesse para tocar na igreja em uma cantata de Bach; o análogo é tão desastroso quanto às análises e opiniões dos jornalistas e articulistas do país.

É óbvio que o Brasil tem homens de gênio e analistas de bom senso; os imperitos audaciosos, contudo, têm um perfil reconhecível e muito específico: são banhados em moderação, uma esquerda que se tornou moderada ou uma oposição virtuosa e iluminada.

Ora, no Brasil, o centro não nasceu do confronto entre duas visões antagônicas sobre a política, mas é o projeto de sociedade aberta que foi empurrado para o centro por ter, à direita, o socialismo fabiano do PSDB e, à esquerda, o socialismo bolivariano do petismo. 

Portanto, é perceptível que o moderado brasileiro não é quem cultivou a tolerância diante de dois espectros antagônicos; é apenas um liberal que foi esmagado entre fabianos e bolivarianos.  A ordem natural para esse espécime que se autoproclama moderado e centrista é uma disputa política que fica entre o progressismo com Estado de bem-estar social do velho tucanato e o bolivarianismo assistencialista do PT.

Qualquer opinião consensual da população comum, ou até a ortodoxia cristã, é suficiente para que esse moderado comece a espumar de ódio diante do opinador e passe a tratá-lo como ameaça ao que ele conhece por civilizado.

Uma expressão dessa moderação travestida de virtude – acompanhada da inabilidade intelectual de um Cachorrão dos Teclados tentando interpretar Bach – foi o texto do colunista Bernardo Carvalho para a Folha de S.Paulo.

Depois de divagar sobre a obra e a vida de Arendt, ao aproximar-se do encerramento, diz que o fato de Flávio estar liderando as pesquisas diante de Lula é sinal de que se está cercado de “amigos desleais”. Essa reflexão sobre o “amigo desleal” é o gêrmen da reflexão sobre a banalidade do mal porque demonstrou a Arendt, de forma íntima e precoce, que a adesão ao totalitarismo não requer monstros ideológicos, mas apenas indivíduos que abdicam de sua capacidade autônoma de julgar.

Bernardo aplica o conceito de Arendt sem maiores justificativas e explicações, à espera de que o leitor simplesmente concorde com todas as suas adjetivações a respeito do Brasil, de Flávio Bolsonaro e de Trump. O autor tenta — sem muito sucesso, diga-se — utilizar o conceito de Arendt para fazer parecer que se está à beira de um colapso como o de Weimar, com Flávio Bolsonaro como grande vilão dessa reedição histórica, é claro.

Mas não é apenas a falta de bom senso que assusta, mas também a instrumentalização de um conceito tão valioso de Arendt, que deveria descrever um fenômeno sombrio e assustador: a ascensão de um regime totalitário. Mas, sob a pena de Bernardo, Hannah não é uma pensadora preocupada em descrever um fenômeno da política real; aqui, ela é apenas quem confirma sua histeria, seus preconceitos e sua intolerância disfarçada de sofisticação.

No Brasil dos faladores, o valor de Arendt é o de verniz intelectual, um carimbo para tentar validar a histeria de moderados raivosos e incivilizados.

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