
Publicado em 04 de Setembro de 2026
Fernando Haddad decidiu colocar o abastecimento de água no centro da disputa política em São Paulo. Promete rever o contrato da Sabesp, responsabilizar a empresa pelos problemas do serviço e apresentar uma solução. Só que deixa de fora informações essenciais sobre a redução da pressão, as regras do sistema, as obras necessárias e o efeito das decisões do próprio governo federal sobre a tarifa.
A redução da pressão é o primeiro ponto. Quando os reservatórios baixam, a retirada precisa ser controlada para evitar uma situação mais grave antes da volta das chuvas. O sistema Cantareira opera desde 2017 sob regras específicas para períodos de escassez. A Sabesp não decide sozinha quando reduzir a pressão da rede. A Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) estabelece as condições de operação e acompanha as medidas adotadas. A companhia responde por falhas na execução do serviço. A redução obedece às condições definidas pela agência reguladora. A medida existe para preservar o volume armazenado durante a estiagem. Haddad não menciona isso.
Haddad promete ainda rever o contrato da Sabesp. Até agora, a proposta termina aí. Ele não disse quais projetos pretende executar, quanto custariam, quando seriam entregues nem de onde viria água adicional numa nova estiagem. Rever o contrato pode alterar as obrigações da concessionária. Falta saber o que será construído para ampliar a segurança do abastecimento.
Sobre reajustes, Haddad mistura períodos diferentes. Cita aumentos sem apresentar a sequência completa, as datas e as razões de cada decisão. Reajustes com origens distintas acabam tratados como parte de um único movimento recente. Cada um teve um período, base de cálculo e justificativa próprios. Sem essas informações, o eleitor não consegue saber o que mudou, quando mudou e por quê.
Mais grave é o silêncio sobre a reforma tributária. Como ministro da Fazenda, Haddad foi o principal responsável pela proposta do governo Lula que substitui os tributos atuais por uma nova cobrança e que alcança também os serviços de água e saneamento. A transição começa em 2027. Parte das famílias de baixa renda receberá devolução pelo cashback, e isso precisa ser dito. Quem ficar fora do benefício tende a pagar mais pelo serviço.
A tributação sobre tratamento, distribuição de água e saneamento integra a estrutura de custos do setor. Quando o custo aumenta, entra no cálculo das revisões e dos reajustes tarifários. O governo pode criar compensações, reduções ou exceções. Não pode ignorar a consequência da regra que aprovou. Haddad critica a conta de água em São Paulo sem mencionar que uma reforma conduzida por ele poderá pressionar essa mesma conta a partir de 2027.
A Sabesp tem de responder por interrupções, obras atrasadas, atendimento ruim e qualquer descumprimento do contrato. A Arsesp tem de explicar a fiscalização, e o governo estadual, o planejamento. Os municípios também têm responsabilidades no saneamento. Há ainda o nível dos reservatórios, as regras de operação e os investimentos realizados. Nada disso aparece com o mesmo destaque no discurso de Haddad.
Quem promete resolver o problema de saneamento precisa apresentar obras, prazos, fontes de água e o impacto de suas próprias decisões tributárias. Em ano de eleição, concentrar a cobrança na Sabesp permite que Haddad deixe fora do debate as decisões do governo federal e o efeito delas sobre a conta. Ele já escolheu a quem culpar. Mas ainda não disse o que pretende fazer para garantir o abastecimento de São Paulo.