
Publicado em 04 de Agosto de 2026
O Brasil quer vender minério, atrair investimento ou construir poder industrial? As três coisas cabem na mesma política, desde que o país saiba onde quer chegar. Hoje a ordem é invertida: anuncia-se a descoberta, comemora-se o interesse estrangeiro, assina-se um protocolo e só depois se pergunta o que ficará aqui além da extração.
Uma política para minerais críticos deveria escolher poucas cadeias nas quais o Brasil reúna reservas, energia, conhecimento técnico e demanda. Para cada uma, seria preciso montar o percurso inteiro: processamento, uso industrial, infraestrutura, financiamento e comprador. Mesmo uma boa jazida pode não sair do papel ou gerar um projeto que quebra depois.
A China já mostrou como isso funciona. Quando quer pressionar compradores, restringe exportações. Quando surge um concorrente, amplia a oferta, derruba o preço e compromete a rentabilidade do projeto. O Japão passou a defender um piso de preço no G7. Os Estados Unidos mobilizaram mais de US$ 30 bilhões, juntando capital público, investimento privado e acordos internacionais. A disputa envolve as condições que mantêm uma mina, uma refinaria ou uma fábrica aberta.
É aí que entram BNDES e Finep. O crédito de longo prazo pode apoiar projetos que tragam processamento, fornecedores, pesquisa e mão de obra qualificada. Financiar apenas a abertura da mina é subsidiar a etapa de menor valor. Também não adianta proibir toda exportação bruta por decreto. Para transformar aqui, é preciso garantir energia, escala, logística, financiamento e mercado.
Projetos bilionários não podem depender apenas do preço do dia. Contratos de longo prazo, compromissos antecipados de compra e mecanismos temporários contra quedas artificiais dariam previsibilidade aos primeiros anos da operação. Quedas de preço provocadas por um fornecedor dominante já destruíram projetos concorrentes, mesmo quando havia reserva, tecnologia e demanda.
É com essas exigências na mesa que o Brasil deveria negociar. O parceiro pode ser americano, chinês, japonês, europeu, indiano ou australiano, mas o acordo precisa trazer mais do que a compra do minério: tecnologia, processamento local, financiamento, acesso a mercados e demanda garantida. A nacionalidade importa menos do que a estrutura produtiva deixada no país.
O caso da Índia mostra a diferença. O protocolo assinado com o Brasil pouco produziu. Na Austrália, os indianos ligaram minerais a defesa, segurança regional, energia nuclear e fornecimento de urânio. Montaram uma relação de longo prazo, com interesses concretos dos dois lados, em vez de uma agenda diplomática para fotografia e comunicado.
O maior gargalo continua dentro de casa. Um projeto estratégico não pode passar por licenciamento, energia, ferrovia, porto, regularização fundiária e decisões judiciais como se cada etapa pertencesse a um governo diferente. O licenciamento virou, em muitos casos, uma máquina de veto sem prazo: o projeto não é aprovado nem rejeitado, acumula exigências, passa de parecer em parecer e ninguém responde pelo custo de manter o país parado.
Em Brasília, mineração, indústria, energia, defesa, infraestrutura e diplomacia continuam em gavetas diferentes. Reservas e interessados já existem. Falta decidir quais cadeias o Brasil quer manter aqui e negociar a partir disso. Sem essa definição, o investidor escolhe onde processar, o banco determina o ritmo e o comprador acaba ditando o preço. Ao Brasil resta autorizar a extração.