
Publicado em 28 de Julho de 2026
Há uma velha máxima na política brasileira: vice não trabalha e, quando trabalha, conspira. A frase é exagerada, mas não nasceu do nada. Durante muito tempo, o cargo foi usado para fechar alianças, acomodar partidos ou equilibrar a chapa. Escolhia-se o nome pensando na eleição. O que ele faria no governo era uma pergunta para depois.
Agora que o PL confirmou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência, a discussão sobre o vice começa a ganhar espaço. Ela não pode virar uma corrida de nomes, muito menos uma campanha disfarçada em favor deste ou daquele interessado.
Antes da pessoa, é preciso definir o papel. É uma escolha de governo, não só de campanha.
Um vice precisa agregar. Deve levar a candidatura a lugares onde ela ainda encontra resistência, conversar com setores que não estão no núcleo mais fiel e trazer experiência, confiança e peso político. Não basta aparecer na fotografia, entregar um partido ou apresentar uma planilha de votos.
O Brasil que produz precisa estar no centro desse debate. Agro, indústria, energia, infraestrutura, comércio e serviços aparecem nos discursos, mas nem sempre no projeto. A diferença surge na hora de escolher prioridades e dividir responsabilidades.
O agronegócio, em especial, não pode ser tratado como curral eleitoral ou cenário de campanha. Seu peso vai além das propriedades e exportações. Ao redor do campo existe uma cadeia de máquinas, fertilizantes, transporte, crédito, tecnologia, armazenagem, pesquisa e agroindústria. Em muitas regiões, essa engrenagem mantém cidades inteiras em movimento.
Por essa razão, faz sentido um vice com diálogo real com o setor produtivo. Não como cota do agro, mas porque o próximo governo precisará entender o que significa produzir num país de crédito caro, infraestrutura ruim, insegurança jurídica e burocracia sufocante.
Mas existe outra condição tão importante quanto a capacidade de agregar: lealdade.
O vice não pode ser um candidato paralelo instalado dentro do governo, muito menos alguém que passe quatro anos esperando a primeira crise para abrir o próprio caminho. Precisa compreender que existe um titular, um projeto comum e uma divisão clara de tarefas. Sem confiança política, qualquer qualidade técnica perde valor.
Isso não significa escolher alguém apagado ou sem força própria. Um bom vice deve assumir agendas relevantes, conversar com o Congresso, acompanhar projetos de infraestrutura, abrir mercados e manter uma relação permanente com quem investe e gera empregos. O cargo só parece inútil quando ninguém lhe dá uma missão.
É aí que o debate precisa sair dos nomes e chegar aos critérios. O vice amplia a chapa sem mudar sua identidade? Tem experiência em gestão? Conhece o Brasil fora de Brasília? Sabe conversar com governadores, prefeitos, empresários, produtores e trabalhadores? Aguenta pressão? Inspira confiança? Quer trabalhar pelo projeto ou apenas pela própria carreira?
A escolha será um dos primeiros sinais sobre o tamanho da candidatura de Flávio Bolsonaro. Mostrará se ela pretende falar apenas com quem já está convencido ou construir uma maioria mais ampla, sem abandonar sua identidade. Também mostrará se o Brasil produtivo terá espaço real ou será novamente chamado apenas para a fotografia.
O melhor vice não é o que produz mais manchetes no anúncio. É aquele que ajuda a ganhar, tem utilidade no governo e não vira um problema posterior. Antes do nome, vem a missão. O restante é torcida e disputa por espaço.