Tarifaço de Trump pede um “momento Hamilton”

Por: Lorenzo Carrasco e Geraldo Luís Lino

Publicado em 26 de Julho de 2026

A nova rodada de tarifas de importação impostas pelos EUA ao Brasil sinaliza uma intensificação da nova agenda global americana e exige das lideranças nacionais um rigoroso discernimento da situação e a elaboração de uma estratégia para o reposicionamento do País em um cenário internacional turbulento e tornado ainda mais volátil pelas ações do presidente Donald Trump.

A rigor, o que presenciamos é uma rejeição frontal do “globalismo” e seus pilares conceituais, aos quais Trump e um influente núcleo de assessores atribuem o enfraquecimento da base industrial e da classe média americana. Tal orientação está contida na Estratégia de Segurança Nacional (ESN) de 2025, que apresenta um conceito de segurança econômica estruturado em torno de seis eixos principais: reindustrialização; comércio equilibrado; acesso seguro a cadeias de suprimentos e materiais críticos; dominância energética; fortalecimento da base industrial de defesa; e preservação da predominância americana no setor financeiro.

A expressão “dominância energética” implica uma rejeição categórica das políticas de “carbono zero” e das agendas climáticas que, segundo essa visão, teriam contribuído para debilitar a base industrial do Ocidente. Em seu lugar, propõe-se a retomada dos combustíveis fósseis e da energia nuclear como fundamentos de uma matriz energética de alta densidade e mais adequada aos processos industriais modernos do que as fontes energéticas intermitentes geralmente associadas ao questionável conceito da transição energética.

Tratam-se de diretrizes que, com a devida atualização, apontam para os fundamentos do chamado Sistema Nacional de Economia Política ou, simplesmente, Sistema Americano, idealizado ao final do século XVIII pelo primeiro secretário do Tesouro dos EUA recém-independentes, Alexander Hamilton, e vetor da conversão do país na maior potência industrial e econômica do mundo em pouco mais de um século.

O princípio reitor do Sistema Americano consiste em colocar o Estado a serviço do fomento das capacidades produtivas da nação. Nas palavras de John F. Kennedy (1961-63), o último presidente americano que pode ser classificado como “hamiltoniano”, o Estado deve atuar como “um catalisador, um energizador, defensor do bem público e do interesse público contra todos os interesses privados que operam na nossa sociedade”.

Na reunião do Fórum Econômico Mundial de janeiro de 2026, o representante comercial Jamieson Greer explicitou a inspiração da agenda do governo Trump: “Hamilton defendeu uma política econômica robusta que permitisse aos Estados Unidos converterem-se em potência industrial. Propôs uma combinação de tarifas e subsídios para estimular a industrialização. Acreditava que tais medidas eram necessárias para promover o desenvolvimento de indústrias, como a têxtil, que precisavam de proteção contra produtores estrangeiros dominantes, a fim de atingir a escala necessária para suprir as necessidades do país e competir globalmente. Essa visão lançou as bases da prosperidade americana – e até mesmo global – nos séculos XIX e XX.”

De fato, o Sistema Americano foi a orientação para todas as nações que atingiram ou estão perseguindo altos níveis de desenvolvimento industrial e socioeconômico, inclusive a China de Deng Xiaoping e seus sucessores.

Em um artigo publicado no jornal O Globo de 19 de julho, o professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, Matias Spektor, aponta na direção certa:

“Os Estados Unidos passaram a reorganizar sua política comercial em torno do poder nacional. O comércio tornou-se instrumento de competição estratégica. As novas tarifas contra o Brasil são parte dessa estratégia mais ampla.

“O Brasil não é o alvo principal. O verdadeiro alvo é a arquitetura da globalização das últimas três décadas. A competição entre Estados Unidos e China reorganiza os incentivos de todos os demais países. A Europa fortalece sua política industrial. A China acelera sua autonomia tecnológica. Economias de todos os portes reduzem dependências arriscadas e diversificam relações comerciais. O comércio internacional deixa de ser espaço de ganhos mútuos e volta a ser terreno de competição entre Estados.”

Essa é a dimensão do desafio colocado ao Brasil, já às voltas com uma acentuada desindustrialização, perda de complexidade econômica e do bônus demográfico, déficits de infraestrutura e mão-de-obra qualificada e outros fatores negativos para qualquer esforço de retomada do desenvolvimento nacional.

De volta a Spektor, ele afirma: 

“O verdadeiro significado das tarifas de Trump não está no aumento da alíquota, mas no fato de que anunciam um mundo em que o comércio cumpre um novo papel. A pergunta que interessa ao Brasil não é como reagir, mas como construir uma política comercial capaz de transformar a inserção internacional do país em desenvolvimento, resiliência e poder nacional.”

Usando outras palavras, o Brasil requer um “momento Hamilton” para orientar a sua inserção global como instrumento de desenvolvimento.

N. dos E. – Em apoio a esse esforço, está no prelo o livro A crise global e o renascimento do Sistema Nacional de Economia Política, organizado por Lorenzo Carrasco, Silvia Palacios e Geraldo Luís Lino e publicado pela Capax Dei Editora.

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